Estelionato religioso

27mar08

Ossário de Tiago 

Em outubro de 2002, na cidade de Jerusalém, arqueólogos acham gravação em pedra de 2.000 anos que teria guardado ossos de Tiago, suposto irmão de Cristo. A suposta relíquia foi uma das descobertas mais comentadas da arqueologia bíblica no começo do século XXI.

Na caixa de pedra calcária, havia a inscrição ‘Tiago, filho de José, irmão de Jesus’  (“Ya’akov bar Yosef akhui diYeshua”), em aramaico, dita caixa teria abrigado os ossos de Tiago, chefe da Igreja de Jerusalém, e seria uma das primeiras provas arqueológicas da existência de Jesus.

Inscrição no ossário de ‘Tiago’

Ocorre que as análises químicas provaram que o ossuário era uma fraude e que o seu dono, o empresário israelense Oded Golan, era o gerente de uma verdadeira fábrica de antiguidades bíblicas.

Golan e seus comparsas Robert Deutsch, Scholmo Cohen e Faiz al-Amaleh, foram acusados de 18 infrações, entre elas fraude, receptação de bens fraudulentos e danificação de antiguidades. Em maio de 2007 eles foram julgados culpados pela Justiça de Israel, Golen foi condenado a 25 anos de prisão.

O ‘processo de fabricação’ de antiguidades era relativamente simples: o grupo comprava no mercado negro artefatos antigos legítimos e depois adicionava as inscrições que os associassem à personagens bíblicas, como reis ou apóstolos. Mas a fraude foi mal-feita, pois as próprias inscrições a denunciaram: elas eram feitas de forma atípica para o período à que se referiam e no dialeto errado. Sobre isso, a pesquisadora israelense Rochelle Altman, especialista de sistemas de escrita antigos e professora da Universidade Hebraica de Jerusalém que teve seu alerta lançado no site Israel Insider, afirmou que:

“Seria preciso ser mais cego que um morcego para não ver que duas pessoas diferentes fizeram a inscrição”

Mas a fraude causou tanto furor que a Discovery fez até um documentário, intitulado “The Lost Tumb of Jesus”, quem quiser conferir, basta acessar os vídeos do youtube.

Mas a falsificação de relíquias não é idéia nova e tanto elas quanto a venda de indulgências foi um dos motivos que revoltou Lutero, que as considerava desvios morais. A divulgação de suas 95 teses é considerada o marco para o início da reforma protestante .

Terzel, o vendedor de indulgências

A pseudo-relíquia mais famosa é a do Sudário de Turim. Nunca um simples pano de linho incitou tamanha discussão: alguns Católicos acreditam que a imagem é a de Jesus Cristo e que o sudário é a sua mortalha e portanto uma relíquia cristã de valor incalculável, enquanto os mais céticos classificam a peça como um embuste. Outro inacreditável embuste, que a mim causa verdadeiros acessos de riso, é o tal ‘prepúcio sagrado‘, em minha opinião, somente um louco ou maníaco guardaria referida parte de uma pessoa.

Todavia, visa o presente ressaltar o aspecto moderno de objetos ditos sagrados ou utilizados em rituais religiosos no contexto brasileiro: a IURD, apesar de associar as religiões afro-brasileiras ao ‘demônio’, resolveu fazer um ‘rearranjo’ e uma ‘resignificação’ de elementos já reconhecidos pelos fiéis dentro do campo religioso brasileiro e passou a utilizar, em seus cultos, elementos notoriamente utilizados nos ritos africanos, como sal-grosso, folhas de arruda, sabonete do descarrego, o fechamento de corpo bem como a invocação das entidades para que se manifestem, contudo aqui para o objetivo é o exorcismo.

A pergunta seria: qual o motivo de assim agirem? Respostas possíveis:
a) conhecendo o quanto os elementos dos cultos africanos estão enraizados no imaginário religioso brasileiro, a incorporação de tais elementos retira deles o caráter demoníaco, ao mesmo tempo em que atrai os adeptos ao uso deles ao culto,
b) o ritual do exorcismo, um dos mais ‘ocultos’ e temidos do catolicismo, simplesmente mexe com o imaginário de todos, o que justifica, por exemplo, o sem-número de sucessos hollywoodianos que tiveram ele como tema. A incorporação de tal ícone ao culto da IURD é também uma forma de atrair pessoas sensíveis aos apelos da mídia.

O mais importante, sob meu ponto de vista, é que a IURD transformou tal sincretismo numa nova forma de arrancar dinheiro dos fiéis, pois as novas relíquias não são doadas, são vendidas. Trata-se de verdadeiro estelionato, numa modalidade mais pérfida (a religiosa), por geralmente atingir as camadas mais humildes de nossa população.

Não entendo o motivo que faz com que tais coisas sejam admitidas, qualquer um pode montar uma seita e começar a vender objetos cerimoniais com poderes mágicos sem que ninguém (eu disse absolutamente ninguém) intervenha impedindo que dita pessoa leve dezenas de outras a erro.

Num dos vídeos inclusos no presente blog, o leitor pode acessar a série ‘Inimigos da Razão’, de Richard Dawkins, lá pode-se claramente perceber que a maior parte dos ‘mágicos’, ‘médiuns’ e afins nada mais faz do que utilizar a leitura fria para arrancar dinheiro dos crédulos. 

Se tais expurgáveis técnicas são conhecidas, o que justificaria a desídia das autoridades em orientar a população? Simples: as próprias autoridades desejam manter a massa na obscuridade, posto que beneficiam-se da ignorância, o apoio religioso em época de eleições é muito bem-vindo.

Isso para mim é um verdadeiro desrespeito ao direito das pessoas. Um mágico/curandeiro/médium promete algo que não pode cumprir. A questão guarda sim relação com o Direito, afinal, entre o mágico (fornecedor) e o consulente (consumidor) há uma relação de consumo, tendo como objeto a prestação de um serviço de comunicação espiritual.

Walter Mercado - ‘ligue djá’

Ora, se o fornecedor não prova que efetivamente pode fornecer tal produto (gostaria de vê-los provando perante a Fundação James Randhi), como se justifica a possibilidade deles continuarem atuando no mercado? Como se justificaria a existência de figuras como o Valter Mercado? Desídia das autoridades e ponto final!

O Vaticano resolveu agora instituir novos pecados capitais; a riqueza, por exemplo, agora é pecado. Engraçado que não vi nenhum movimento da ICAR para livrar-se de suas imensas riquezas. Mas não é só a ICAR quem se beneficia do ‘dízimo dos fiéis’, todos já viram a mansão que Edir Macedo está construindo, não viram?

Por fim, coloco todos num mesmo ‘balaio’: líderes religiosos, falsos médiuns, políticos (et e al), pois a maior parte deles se dedica à explorar as fragilidades das pessoas.

 

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