Palhaçada: mais um estelionato educacional

06mar08

Bozo 

“…Alô criançada,
o Bozo chegou,
Trazendo alegria,
Prá você muito amor,
Vamos, todos, vamos brincar…”

É assim que eu me sinto neste país: coloca uma cerca e vira hospício, jogue uma lona e vira circo!

Sabe aquela história do Stephen King “It”, em que o monstro, travestido de palhaço engraçadinho atraía as crianças e depois revelava sua verdadeira face? Então…é isso!

Nosso país é tão bonito, tudo tão certinho, tudo melhorando, inclusive os índices de IDH…tudo fachada, enganação; e nós? Nós somos os trouxas, atraídos pelo ‘Parcimonioso’.

A historinha da carochinha: 

Eis aí mais um exemplo do estelionato educacional: um garoto de oito (é, eu disse OITO) anos é o novo calouro da Faculdade de Direito da Unip (Universidade Paulista) de Goiânia. O menino João Víctor Portelinha de Oliveira, que está adiantado na escola em relação aos garotos de sua idade (está no 5º ano do ensino fundamental), pediu aos pais para ser inscrito no vestibular. Surpreendeu a todos ao ter o nome divulgado na lista de aprovados.

Vestibular continuado:

Pois é, o garoto fez o vestibular ‘continuado’, nova modalidade de ‘processo seletivo’ adotado por quase todas as universidades particulares. O leitor por certo não desconhece: em dita prova quase nada é exigido do aluno, não raro somente uma redação ou até mesmo o Boletim de Resultados do Enem e o aluno já é considerado apto a freqüentar os cursos.

Também, considerando o nível de conhecimento geral apresentado pelos alunos do ensino médio, se ditas universidades exigirem muito, ficam sem clientes….ops! er…..Alunos, eu disse alunos!

Será por isso que a redação do UOL (em São Paulo), não logrou êxito em obter uma cópia da prova aplicada no último vestibular da Unip? A comissão justificou a negativa informando que as avaliações só são divulgadas mediante autorização de seu presidente, por e-mail. O UOL enviou o e-mail, mas até as 19h20 desta quarta não havia obtido resposta. Mesmo os estudantes que fazem o concurso não podem levar a prova para casa.

E os pais acreditam:

Os pais do menino disseram que se preciso, ‘baterão às portas do Judiciário’ para garantir ao filho o direito de freqüentar o curso. Minha opinião? Ou são eles ingênuos demais ou absolutamente irresponsáveis.

O fato é que a matrícula do garoto já foi efetivada nesta quarta-feira (5).

Para a D.Maristela (mãe do garoto), o filho não é superdotato. Segundo ela, João é uma criança responsável, estudiosa e que gosta muito de ler. “Ele acompanha desde o caderno de esportes até as reportagens de política. O gosto pela leitura o ajudou muito na redação”.

E a vítima também acredita:

A maior vítima da história toda é o próprio garoto, que está sendo levado a crer na ilusão de que está preparado para tornar-se um universitário. Coitado, no máximo, se tornará um ‘universiOtário’, em entrevista, disse ele:

“A redação foi fácil. Quem não consegue escrever um texto com base numa matéria que saiu na imprensa?”

O garoto acrescenta que deseja ser juiz federal. Nós também cremos que isso é possível, até torcemos para que acontece, mas antes o garoto teria de ser tirado deste engodo todo que é o ‘estelionato educacional’.

Palavras da Unip:

A unidade da Unip, em Goiânia, não quis se pronunciar sobre o assunto. Através da assessoria de imprensa, em São Paulo, a instituição emitiu uma nota:

“De acordo com as normas acadêmicas da Unip, o estudante João Victor Portelinha de Oliveira participou do processo seletivo na condição de ‘treineiro’, numa prática adotada por várias universidades públicas e privadas.

O desempenho do estudante, levando em consideração sua idade e escolaridade, foi bom, especialmente na prova de redação, em que revelou boa capacidade de expressão e manejo eficiente da língua. A singeleza do conteúdo não destoava da linguagem simples, direta, coloquial, com poucos deslizes em relação à norma culta. Este fato o torna merecedor de um acompanhamento especial em seus estudos”.

Hum, hum……

OAB quer fiscalização:

A OAB (Ordem do Advogados do Brasil), seção Goiás, também se pronunciou por meio de nota.

“A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção de Goiás considera preocupante a informação de que uma criança de apenas oito anos passou no vestibular da Faculdade Unip para o curso de direito. O fato materializa o alerta que a OAB-GO vem fazendo há tempos sobre a mercantilização do ensino jurídico, que não está sendo tratada pelas autoridades com a devida urgência que requer. A OAB-GO defende maior rigor na fiscalização das Instituições de Ensino Superior por parte do Ministério da Educação e luta para que sejam punidas aquelas que tratam o curso de Direito com interesse meramente mercantil, desrespeitando a relevância da boa formação do bacharel para a sociedade.

O referido fato, por si só, caso seja comprovado, merece que a instituição de ensino sofra imediata intervenção do MEC para que seja verificado se casos semelhantes ocorrem com freqüência e em que circunstância o episódio ocorreu.

Nesse caso, a OAB-GO, uma das principais interessadas em ver apurada a denúncia absurda e defensora de mudanças efetivas no ensino jurídico que priorizem a qualidade do mesmo, se dispõe a acompanhar um ato dessa natureza”.

Ah, claro, a OAB tinha de se pronunciar, né? Afinal, ‘pega mal’ a história, macula a imagem de todos os advogados. Uai! E os advogados mais antigos que nunca fizeram prova alguma para ingressarem na Ordem e, mesmo sendo alguns absolutamente incapazes profissionalmente ainda continuam com o direito de atuarem? 

Imagem final:

Olha só que bonitinho é o ‘papai’ Parcimonioso. Ele diz prás suas vítimas: “você quer um balão? Venha pegar um balão! Balões flutuam, venha flutuar conosco”:

Parcimonioso ‘It’ Stephen King

Fonte: Uol

ATUALIZANDO:

Parece que o ‘alarde’ feito pela imprensa surtiu algum efeito:

Após conseguir aprovação no vestibular para a Faculdade de Direito na Unip (Universidade Paulista), o estudante do ensino fundamental João Victor Portellinha de Oliveira, 8, encontrou sua primeira dificuldade como calouro.

Acompanhado pelo pai, William Ribeiro, ele foi barrado pela segurança do prédio da faculdade, em Goiânia, ao se apresentar para assistir às aulas pela manhã. O pai do garoto algou que irá tentar solucionar o problema:

“Fiquei decepcionado, mas acredito que tenha sido apenas um problema de falta de comunicação. Agora, estou tentando agendar uma reunião com o responsável pela faculdade para tratar do assunto”.

Ele informou que as aulas do curso de direito já começaram e que hoje seria o primeiro dia de João Victor. “Chegamos ao prédio da faculdade por volta das 7h, horário que os responsáveis ainda não estavam. Apareceram somente os seguranças que, talvez por desconhecimento da história, impediram que ele entrasse no prédio. Espero resolver o problema ainda hoje”, disse.

A mãe de João Victor, a arquiteta Maristela Portelinha, informou que o filho ficou chateado com a situação. E ela também. “Acho que poderiam ter tido um pouco mais de consideração. Se não queriam deixar que ele assistisse à aula, pelo menos que tivessem a gentileza de convidá-lo para conhecer as dependências da faculdade. Poderia ser menos drástico”, disse.

Dinheiro de volta

Na noite de ontem, a direção da Unip voltou a se pronunciar por meio de nota à imprensa e informou que o valor referente ao pagamento da matrícula (R$ 516) já está disponível para ser devolvido à família. “Quando soube disso, o João Victor ficou chateado. Ele me disse que não queria o dinheiro. Queria era estudar”, conta Maristela.

Ela informou também que, apesar da intransigência da instituição, refletiu melhor sobre a possibilidade de recorrer à Justiça. “Inicialmente, não estamos mais cogitando radicalizar. Queremos resolver o problema por meio do diálogo. E vamos conversar muito com ele para evitar que seja ainda mais exposto e prejudicado com toda essa situação que se formou em torno do assunto”.

Além da aprovação surpreendente, o currículo escolar de João Victor é motivo de orgulho para a família. Ele começou a estudar com dois anos, em Campo Grande (MS), onde a família morava. A mudança para Goiânia se deu há cinco anos.

Quando completou cinco anos, a mãe quis matriculá-lo na escola Imaculada Conceição, onde estuda até hoje. “Como ele só tinha cinco anos, não queriam matriculá-lo no primeiro ano. Só depois de muita insistência e após ter feito uma prova é que o aceitaram na escola”, conta.

A redação do UOL, em São Paulo, tentou obter uma cópia da prova aplicada no último vestibular da Unip, mas a comissão do vestibular informou que as avaliações só são divulgadas mediante autorização de seu presidente, por e-mail. O UOL enviou o e-mail, mas até as 19h20 de ontem (5) não havia obtido resposta.

A reportagem pediu também dados sobre a concorrência do curso e a nota mínima de aprovação no vestibular, mas não recebeu resposta até as 17h20 desta quinta.

Fonte: Uol

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8 Responses to “Palhaçada: mais um estelionato educacional”

  1. 1 Marcelo

    Eu acho que o muleque tinha que estudar sim! Fazer a OAB ainda não rs… mas se formar, ja ia atingir a capacidade juridica desde pequeno! a propria lei diz, se menor de 16 se formar em curso superior, é dotado de capacidade total juridica… como se formar menor de 16 se ngm pode fazer faculdade antes disso!?

    Bleh! deixa o mlk apavora os mais velhos q n sabem de nada!

  2. Vanne:

    Toda ‘generalização’ acaba decorrendo da observação de um fato.

    No caso, é fato que boa parte das faculdades e universidades estão ‘pouco se lixando’ com a qualidade do ensino.

    Quanto aos alunos, como educadora, vc sabe que por mais esforçado que um aluno seja, seu estudo tem de ser direcionado (ele precisa de um professor que lhe mostre, passo-a-passo o que estudar e em quais momentos). No ensino do Direito, p.ex, pouco ou nada adiantará ao estudante pegar um livro de Direitos das Obrigações, p.ex, pois sem a ‘base’ ele nada entenderá.

    Assim, hipoteticamente falando, um aluno esforçado poderia ter sua educação comprometida pela falta de responsabilidade da instituição de ensino e de qualificação dos professores.

    Mas achei válido seu comentário.
    Abraços e obrigada pela visita.
    😉

  3. 3 Vanne

    Não percamos o foco da reportagem Raquel! Generalizar assim o Ensino das EScolas Particulares é algo não condizente com quem veio debater seriamente o assunto.
    Conheço, como educadora, diversos alunos de faculdades públicas que não têm metade do discernimento, garra e proveitamento de um aluno de Faculdade Particular.
    Apoio total à questão do mercantilismo da Educação, em todos os setores, incontestável a afirmativa!
    Discordância total sobre a generalização em si. Há estudantes e estudantes, “eles” (os estudantes) é que fazem a diferença! O aproveitamento das provas da OAB que o diga!

  4. Infelizmente é assim mesmo. Um grande comércio se faz da educação.

  5. Désenchantée :

    Recomendo ´”Crítica da razão Pura”.

    Versão on-line clique aqui

  6. 6 désenchantée

    Olá!!

    Nossa… e eu ainda fiquei surpresa pelo fato dos pais AINDA quererem que a criança freqüente a faculdade!

    Ademais, queria agradecer pelo comentário no meu blog e pela dica do livro. Sugestões são sempre bem vindas =)

    Nunca li Kant, na verdade conheço muito pouco sobre ele e sua obra, me aconselhas algum em especial?

    Sempre que quiseres passar no meu blog serás muito bem vinda, mesmo que seja só para olhar.. =)

    Um abraço!!

  7. 7 Raquel

    Isto é uma verdadeira palhaçada!! Nunca estudei em faculdade particular nem para a graduação ou para o mestrado (não porque não quis, mas por não ter condições de pagar uma particular), mas pelo visto não perdi nada.

  8. Os pais do menino disseram que se preciso, ‘baterão às portas do Judiciário’ para garantir ao filho o direito de freqüentar o curso. Minha opinião? Ou são eles ingênuos demais ou absolutamente irresponsáveis.

    Lembram-se sobre o que Einstein disse sobre o Universo e a estupidez humana? Pois é. Esses “pais” se enquadram nisso como uma luva.