Carandiru: farpa que ainda incomoda

18fev08

 Massacre do Carandiru

Dois anos depois, absolvição de coronel que atuou no massacre do Carandiru ainda divide opiniões

A absolvição do coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Ubiratan Guimarães, responsável pela invasão – ocorrida em 1992 – da casa de detenção do Carandiru, ainda divide opiniões.

No dia 15 de fevereiro de 2006, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou sentença que condenava o coronel Guimarães a 632 anos de prisão por chefiar a invasão no Carandiru. O episódio resultou em 111 mortes, em outubro de 1992.

Se para uns, a decisão da Justiça que completa hoje dois anos foi apropriada, para outros veio somente agravar o sentimento de impunidade em relação ao episódio, já que nenhum dos 120 policias denunciados pelo massacre foi condenado até agora.

“Me causou uma grande frustração [a absolvição], que aumentou por não ter sido possível levar a questão ao Superior Tribunal de Justiça”, lamentou em entrevista à Agência Brasil o procurador da promotoria de justiça do Ministério Público de São Paulo, Antônio Visconti, se referindo à morte do coronel Ubiratan em 11 de setembro de 2006, quando foi encontrado em casa com uma marca de tiro no peito.

Visconti foi o responsável pela sustentação oral da acusação contra Ubiratan no julgamento de 2006. O procurador afirma ter notado de antemão um “sentimento geral” favorável à absolvição do coronel e que os magistrados recorreram a uma “saída técnica engenhosa” diante de uma base de provas que, segundo ele, evidenciava a culpa pelo massacre.

“O excesso já começou na escolha dos meios. O coronel determinou tropas de confronto e não de contenção. Aí é que reside a responsabilidade dele. Bastava um cacetete e usaram metralhadora”, argumentou.

Já a assessora parlamentar Karina Rodrigues, que trabalhou com o coronel Ubiratan entre 2002 e 2006, quando ele foi deputado estadual, alega que a absolvição, apoiada por todos os desembargadores do órgão especial do TJSP, com exceção do relator e do revisor, fez justiça ao acusado. O entendimento foi de que o coronel teria agido no estrito cumprimento de seu dever funcional.

“Havia fogo que chegou a 800 graus e se chegasse a 1000 graus derreteria todo mundo. Os bombeiros precisavam entrar lá dentro, mas primeiro a polícia tinha que acabar com a rebelião. Estavam sendo cometidos crimes lá dentro”, disse Karina.

As investigações apontaram que 9 presos foram mortos em confrontos entre si e outros 102 após a entrada da polícia na casa de detenção. A ex-funcionária do coronel relativiza a quantidade de mortes registrada. “Foi bom morrer 102? De jeito nenhum, mas haviam 2.064 presos lá dentro. Em termos de contas vamos falar em 5%. Morreu quem enfrentou a polícia”.

Karina Rodrigues lançou recentemente, em parceria com jornalista Hélvio Borelli, um livro que, segundo ela, traz “todos os lados” do episódio. A obra inclui depoimentos de carcereiros, presos e policiais que estavam no Carandiru no dia do massacre .

O ex-ministro da Justiça José Gregori, hoje presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, acompanhou dois dias de julgamento e, do ponto de vista técnico, considerou que os argumentos apresentados pela defesa foram mais consistentes que os da promotoria. Mas a constatação não reflete o posicionamento pessoal de Gregori em relação ao episódio.  

“Nunca absolvi em consciência o comandante da operação. Ele arrasou um motim e não solucionou. Não estando o Brasil num regime nazista ou estanilista, não tem qualificativo. Na melhor das idéias, ele foi incompetente. Esse comportamento funcional não é aquele dos que vão para a galeria de honra da Polícia Militar”, afirmou Gregori .

Fonte: Âmbito Jurídico

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3 Responses to “Carandiru: farpa que ainda incomoda”

  1. Sou ruim, pérfido e cruel. De minha parte bem que podia haver pena de morte.

    E se quiserem incluir algum meganha safado na fila de execução, por mim, tudo bem.

    Há um adágio: A diferença entre polícia e bandido é que um deles usa farda.

    E eu quero ver quem é que vai me convencer que o cara presta concurso público para ganhar menos de 1000 reais, com dedicação exclusiva, pra subir morro pra trocar tiro com marginal armado até os dentes, apenas por ser honesto e visar o bem-estar da população.

    Tb quero ver quem é que vai me convencer que os BOPEs da vida são só feitos de gente honesta e capaz.

    Alguém se lembra do caso co ônibus 174? O poliça “ixpessialista” deu um tiro com uma submetralhadora a um palmo de distância do marginal, NÃO ACERTOU o vagabundo e ainda matou a refém.

    Isso não é nem incompetência: É ESTUPIDEZ DA GROSSA!!!

  2. André :

    Questãozinha espinhosa essa, por isso o título ‘farpa que incomoda’.

    Se por um lado entendo que lá não havia nenhum santinho; que todos eram criminosos que tinham contra si sentenças penais transitadas em julgado; que dado o antagonismo entre ‘policiais’ e ‘bandidos’, o resultado era de se esperar; por outro posso deixar de observar que: a) a pena foi de restrição de liberdade e não morte, b) tal motim também foi ocasionado pela absoluta falta de estrutura e absoluto abandono daquela Casa, c) se eles (os presidiários) lá estavam por haverem descumprido a lei, então é o descumprimento da lei que se repudia. Neste caso, TODOS têm de cumprir a lei e, dada esta obrigatoriedade, até o ESTADO têm de cumprí-la (a CF/88 teria de ser cumprida também, certo?).

    Mais uma vez seu comentário vem enriquecer o debate. Obrigada por utilizar os serviços do “palavras sussurradas. wordpress”. 😉

  3. Alguém parou para pensar no motivo que levou os caras a pararem lá no presídio?