Teologia – Deus é criador ou criatura?

22nov07

 A Criação de Adão, Michelângelo, Capela Sistina

1) Introdução

Analisamos a Revista “Aventuras na História”, Ed.52, e a Prova do Enade do ano de 2007, e verificamos  que a primeira teve como matéria de capa “A criação de Deus” e a segunda teve, entre as questões de conhecimentos gerais, uma que também abordava Deus e a Criação do Homem, esta última sob o ponto de vista da obra de Michelangelo Buonarroti na Capela Sistina.

O que justificaria a abordagem do conteúdo de ambos os textos neste artigo? Simples: a figura do ‘divino’, importada da mitologia dos hebreus, exerce fortíssima influência nas sociedades, nas políticas internas/externa de inúmeras Nações.

Sigamos nesta diminuta jornada.

2) A Revista.

Intróito – Tenta explicar que a maioria dos mitos divinos criados pela humanidade foram legados ao ostracismo, segue afirmando que este não foi o caso do deus bíblico, termina explicando que referido mito domina a civilização do Ocidente, o que justificaria a necessidade de entender como este surgira e tornara-se tão importante.

Deus e Deus – Há uma breve explicação do surgimento do ‘divino’ na história da humanidade, iniciando-se na pré-história até o século I a.E.C.

Deus Tribal – Neste ponto o texto explica quando haveria ocorrido o ‘suposto’ pacto entre Javé e os homens (haveria este iniciado com Abrão ou Abraão), descrevendo que o então deus descrito era um deus sanguinolento; tão brutal, parcial e assassino que ficou conhecido como ‘Javé Sabaoth’ (Deus dos Exércitos).

Em um paratexto constante na mesma página que este subtópico, há a explanação dos motivos pelos quais o deus bíblico teria o estereótipo “Homem solteiro, velho e poderoso”:

“…O deus pintado por Michelângelo no teto da Capela Sistina, no Vaticano, não é popular por acaso. Seu gênio artístico revela toda a força, poder, onipotência e masculinidade do Javé bíblico. Mas por que Javé é sempre representado como um homem? ‘Mesmo que os monoteístas insistissem que seu deus transcedia o gênero sexual, ele iria permanecer essencialmente masculino’, escreveu a historiadora das religiões Karen Armstrong – ‘Em parte, isso se devia às origens dele como um deus da guerra tribal’ – Há cerca de 4 mil anos, quando a figura de Javé foi ganhando suas feições, as mulheres começariam a ser vistas nos impérios da Antiguidade como pessoas de segunda classe. O advento das cidades, assim, fez com que a força marcial e física superasse as qualidades femininas. Como resultado, as antigas deusas da fertilidade veneradas por milhares de anos na Europa e no Oriente foram desbancadas pela força bruta de Javé.Desde então, masculinidade e poder andam juntos”.

 Segue aduzindo que em todo o chamado “Pentateuco” (primeiros cinco livros da bíblia), o deus é descrito como mais preocupado em ameaçar a raça humana para que ela não desvie de suas instruções.

Finaliza o subtópico explicando que tal deus , por sua barbárie e excessivas exigências, não tornou-se atrativo a novos adoradores, sendo por isso difícil a conversão dos romanos.

Deus Cristão – Neste subtópico explica-se que até o Séc. I d.E.C, era o cristianismo apenas e tão-somente uma corrente do judaísmo, mas que tudo haveria de mudar em virtude da atuação de Paulo de Tarso (o ‘apóstolo’): 

“……Paulo de Tarso, um homem cosmopolita recém-convertido para quem os traços judaicos do cristianismo estavam arruinando seu trabalho de arrebatamento de novos cristãos…a idéia central de Paulo, resumida na frase de que o verdadeiro cristão se justifica pela fé e não pelos trabalhos da lei, prevaleceu…Com isso, o deus Javé também deixou de ser um fenômeno regional, ligado apenas ao povo hebreu, para ganhar caráter universal.

 Em outras palavras, o intuito de Paulo teria sido o de angariar adeptos à nova religião, vertente do judaísmo que não fazia sucesso entre os judeus.

Expandindo-se a nova fé, a imagem do deus sanguinolento deu lugar à de um mais complacente, bondoso e caridoso.

Imagem de Jesus de Nazaré, o messias Cristão 

Paulo (ou Saulo) de Tarso, um homem cosmopolita recém-convertido para quem os traços judaicos do cristianismo estavam arruinando seu trabalho de arrebatamento de novos cristãos . A idéia central de Paulo, resumida na frase de que o verdadeiro cristão se justifica pela fé e não pelos trabalhos da lei, prevaleceu…Com isso, o deus Javé também deixou de ser um fenômeno regional, ligado apenas ao povo hebreu, para ganhar caráter universal.Termina o tópico apresentando um novo ponto de vista sobre o deus hebreu; como se ele (Javé), pudesse ter sentido ‘na pele’ o que é ser humano, no momento da crucificação.

3) Prova do Enade/2007

No conteúdo da prova do Enade do corrente ano, encontramos, sob o tópico ‘conhecimentos gerais’, a seguinte questão: 

BARRETO, Gilson e OLIVEIRA, Marcelo G. de. A arte secreta deMichelangelo — Uma lição de anatomia na Capela Sistina. ARX.

QUESTÃO 8

Entre 1508 e 1512, Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina, no Vaticano, um marco da civilização ocidental. Revolucionária, a obrachocou os mais conservadores, pela quantidade de corpos nus, possivelmente, resultado de secretos estudos de anatomia, uma vez que, naquele tempo, era necessária a autorização da Igreja para a dissecação de cadáveres. Recentemente, perceberam-se algumaspeças anatômicas camufladas entre as cenas que compõem o teto. Alguns pesquisadores conseguiram identificar uma grande quantidade de estruturas internas da anatomia humana, que teria sido a forma velada de como o artista “imortalizou a comunhão da arte com o conhecimento”. Uma das cenas mais conhecidas é “Acriação de Adão”. Para esses pesquisadores, ela representaria o cérebro num corte sagital, como se pode observar nas figuras a seguir.

Considerando essa hipótese, uma ampliação interpretativa dessa obra-prima de Michelangelo expressaria:

A) o Criador dando a consciência ao ser humano, manifestada pela função do cérebro.

B) a separação entre o bem e o mal, apresentada em cada seção do cérebro.

C) a evolução do cérebro humano, apoiada na teoria darwinista.

D) a esperança no futuro da humanidade, revelada pelo conhecimento da mente.

E) a diversidade humana, representada pelo cérebro e pela medula.

(a resposta considerada correta, conforme gabarito oficial, é a que está em negrito). 

O conteúdo da prova revela que a revista está correta, no sentido de que a cultura Ocidental está permeada pela imagem do deus bíblico, senão, qual seria o sentido de uma prova, ministrada por um órgão governamental de um Estado supostamente laico (conforme expresso texto constitucional), conter questão que abordasse esse assunto?

4) The Flying Spaghetti Monsterism.

The Flying Spaghetti Monsterism. 

Conforme pode-se ver num simples acesso na Wikipédia, trata-se de uma religião fictícia fundada por Bobby Henderson em 2005 para protestar contra a decisão do sistema educacional do estado americano de Kansas, de requerer o ensino do Criacionismo ou design inteligente como alternativa ao evolucionismo biológico. Em uma carta aberta em seu site, Henderson diz acreditar em um Criador sobrenatural chamado Monstro de Espaguete Voador (Flying Spaghetti Monster), formado por espaguete e almôndegas, e pede que Pastarianismo seja ensinado em aulas de ciências; usando assim um argumento reductio ad absurdum contra o ensino do criacionismo nas escolas.

Os seguidores do Monstro do Espaguete Voador também se afirmam como Pastafariano ou Pastafáris, um trocadilho com pasta (macarrão em inglês) e Rastafáris.

Em suma: insurgia-se o autor exatamente contra a idéia de que religião e Estado voltassem a ficar de mãos dadas.

(curiosidade: em 1993, o grupo musical ‘Guns ‘n’ Roses’ lançou o disco “The Spaghetti Incident?”, tendo como tema de capa um prato da iguaria e estampado diretamente no CD, um ‘monstro’ de espaguetti).

5) Embaralhando as cartas anteriores

O que assuntos tão aparentemente díspares poderiam ter em comum?

Simples: todos, de uma forma ou outra, relacionam-se com a idéia de ‘divindade’, da existência de um ser sobrenatural que teria criado o homem.

Ora, já em outro artigo, abordamos a questão do ‘divino’. Desde á pré-história o homem ‘deifica’ tudo quanto lhe parece ‘obscuro’, ‘inexplicável’, ‘mágico’ ou atemorizante.

Isto explica a enorme diversidade de divindades.

O deus bíblico não é uma exceção, apenas mais um dentre o rol de deuses criados pelo homem, e neste aspecto passa ele de Criador para a condição de Criatura.

Haverão aqueles que tentarão justificar a realidade factual do deus bíblico por meio da própria bíblia, cainda numa (i)lógica circular sem fim (Deus existe porque a bíblia diz que ele existe e a bíblia é a palavra de Deus, portanto, é a verdade….e assim por diante).

Argumento risível, posto que diz-se sobre a bíblia que ela é o reflexo da pessoa do deus Javé. Considerando-se que atribuem a esse deus os modestos adjetivos de “onisciente”, “onipresente”, “onipotente”, “bom”, “justo” e “perfeito”, um texto (no caso, a bíblia) que refletisse a imagem deste ser teria de ser também (e no mínimo) perfeita.

Ora, todos sabemos que a perfeição passa bem longe do texto bíblico. Ou alguém acredita em:

a) Jumentas falantes?

b) Que morcegos são aves?

c) Muros que caem ao som de trombetas?

d) Que alguém passa 40 dias e noites sem comer e beber?

e) Plantas criadas antes do Sol?

f) Dilúvio bíblico?

Tendo tais informações em mente, impossível que não nos perguntemos como ainda em alguns países se insiste em que ‘religião’ seja uma disciplina a ser ensinada nas escolas.

Em toda e qualquer religião que se observe, encontramos narrativas de acontecimentos ‘fantásticos’ (e, não raro cientificamente impossíveis), inexatidões científicas ou mentiras deslavadas. Alçar ‘religião’ à condição de disciplina curricular revela um total descomprometimento com o conhecimento e com a verdade.

De mais a mais, a ‘religião’ (1) contém idéias perigosas que não raro tem servido como justificativa aos piores crimes já vistos.

Um Estado verdadeiramente laico – utopia que não encontramos em lugar algum deste planeta – não permitiria que o lobby de uma maioria religiosa impusesse seus dogmas aos demais.

Bom. Decreto o fim desta diminuta jornada (eu avisei no início que era diminuta!).  😉

(1) Sobre as perigosas idéias contidas nas ‘religiões’, leia: http://ceticismo.wordpress.com/2007/11/21/qual-e-a-ideia-mais-perigosa-na-religiao/

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5 Responses to “Teologia – Deus é criador ou criatura?”

  1. 1 FRANCIELLY RAQUEL

    O DEUS DA BÍBLIA É O VERDADEIRO DEUS

    E ISSO É INCONTESTÁVEL COM CERTEZA, NÃO SE DEIXE SER LEVADO PELA VOZ DO INIMIGO DE DEUS E MUDE DE ATITUDE, VEJA QUE JESUS TE AMA E QUER MUDAR SUA VIDA. O DEUS DA BÍBLIA É O DEUS CRIADOR DE TUDO, DESDE A TERRA ATÉ A MINÚSCULA CÉLULA QUE PODE HAVER, ELE É O DONO DE TUDO E QUEM NÃO CRER QUE SÓ JESUS CRISTO É O SALVADOR DE TODA HUMANIDADE, SE FARÁ CONDENADO PELA VIDA ETERNA NO INFERNO COM O DIABO,PADECENDO SOFRIMENTOS E DORES PARA SEMPRE, MAS QUEM CRER EM JESUS, TERÁ O PRIVILÉGIO DE SER UM FILHO DE DEUS E VIVERÁ ETERNAMENTE COM JESUS CRISTO NO CÉU, QUANDO ELE VIER OUTRA VEZ PARA BUSCAR SUA IGREJA PREPARADA.

    QUERO DIZER AQUI QUE TODOS SOMOS CRIATURAS DE DEUS, PORÉM HÁ OS QUE SÃO FILHOS DE DEUS, E ESSES FILHOS SÃO OS QUE ACEITARAM A JESUS COMO SEU UNICO SENHOR E SALVADOR DA SUA ALMA.

    DEUS, IAVÉ E O ÚNICO DEUS E NÃO HÁ OUTRO DEUS ALÉM DELE!

    QUE A PAZ DO MEU DEUS ESTEJA CONVOSCO EM NOME DO SEU FILHO JESUS DE NAZARÉ, O CRISTO!

    JESUS TE AMA!!!

    ABRAÇOS A TODOS.

  2. Marta:

    Olá, Bom-dia!
    Eis tua resposta:

    aiaiai vi que vc nunca estudou sobre acustica e sobre geologia !Muros cairiam ao som de trombetas sim sim …so por acustica!

    Israel Finkelstein, Diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv, em Israel, em seu livro “A Bíblia não tinha razão”, classificou dita passagem bíblica como ‘miragem romântica”, conf. Pg 119, in verbis:

    …Como já observamos, as cidades de Canaã não eram fortificadas, e não existiam muralhas que pudessem desmorornar. No caso de Jericó, não havia traços de nenhum povoamento no século XIII a.C, e o antigo povoado, da Idade do Bronze anterior, datando do século XIV a.C, era pequeno e modesto, quase insignificante, e não fortificado. Também não havia nenhum sinal de destruição. Assim, a famosa cena das forças israelitas marchando ao redor da cidade murada com a Arca da Aliança, provocando o desmoronamento das poderosas muralhas pelo clangor estarrecedor de suas trombetas de guerra, era, para simplificar, uma miragem romântica.”

    diluvio biblico? existira sim ! em pleno seculo XXI tivemos um tsumane eai o que me diria disso entao?pq vc nao acredita em diluvio?tsuname e diluvio é a mesma coisa meu amigo!


    1) Diferença entre um tsunami e um dilúvio:

    Num tsunami há um deslocamento da água já existente no planeta, em direção à porção de terra seca; no dilúvio, Deus, supostamente manda muito, mas muito mais água para o Planeta, por meio de um chuvaréu desgraçado.

    2) Sobre a veracidade do dilúvio, recomendo que leia e refute, um a um os argumentos do artigo que pode ser acessado aqui.

    vc é mesmo blafemo hein!Se Deus fosse criatura , quem teria criado ele ?nao seria algum criador ?


    1) Ao mencionar ‘criador’ e ‘criatura’, busquei fazer um jogo filosófico com o termo, pois Deus foi a maior invenção humana, desde os primórdios da civilização, o homem deifica tudo o que lhe é desconhecido ou misterioso (nos primórdios da história humana, o homem chegou a deificar desde fenômenos naturais, até partes de seu corpo, como a vulva e o pênis, por exemplo).
    2) Sobre as provas da existência de Deus, gostaria que vc, com sua elevada sapiência, refutasse um a um cada uma das doze provas que o negam.
    3) Ainda sobre a existência de Deus, transcrevo abaixo uma passagem, escrita por Richard Dawkins que creio que poderá ser-lhe útil (recomendo, no entanto, a leitura do texto integral, que pode ser acessado aqui):

    Por que é que as pessoas acreditam em Deus? Para a maior parte das pessoas a resposta é ainda uma qualquer versão do antigo Argumento do Desígnio. Olhamos em volta para a beleza e complexidade do mundo ― para o movimento aerodinâmico de uma asa de andorinha, para a delicadeza das flores e das borboletas que as fertilizam; por intermédio de um microscópio para a vida luxuriante existente em cada gota de água de um tanque; por intermédio de um telescópio para a copa de uma sequóia gigante. Refletimos na complexidade eletrônica e na perfeição óptica dos nossos olhos que vêem tudo isto. […]. A expressão mais famosa deste argumento é a analogia do relojoeiro de William Paley, padre do século dezoito. Mesmo que não soubéssemos o que é um relógio, o caráter obviamente concebido dos seus dentes e molas e de como engrenam uns nos outros para um propósito, forçar-nos-ia a concluir “que o relógio teve de ter um autor: que teve de ter existido, nalguma altura, num lugar ou noutro, um artífice ou artífices, que o concebeu com o propósito a que o vemos agora responder; que compreendeu a sua construção e concebeu o seu uso.” Se isto é verdade de um relógio relativamente simples, não é muito mais verdade do olho, do ouvido, do rim, da articulação do cotovelo e do cérebro? Estas belas, complexas e intrincadas estruturas, que foram evidentemente construídas com um propósito, tiveram de ter o seu próprio autor, o seu próprio relojoeiro ― Deus.

    Tal é o argumento de Paley, e é um argumento que praticamente todas as pessoas que refletem e têm sensibilidade descobrem por elas próprias em certa altura da sua infância. Durante a maior parte da história deve ter parecido absolutamente convincente e de uma verdade auto-evidente. E contudo, como resultado de uma das mais espantosas revoluções intelectuais da história, sabemos agora que é errado ou pelo menos supérfluo. Sabemos agora que a ordem e a aparente intencionalidade do mundo vivo aconteceu por intermédio de um processo completamente diferente, um processo que funciona sem a necessidade de qualquer autor e que é uma conseqüência de leis físicas basicamente muito simples. Este é o processo de evolução por seleção natural, descoberto por Charles Darwin e, independentemente, por Alfred Russel Wallace.

    Por fim, agradeço a vista e comentário.
    Abraços!

  3. 3 Marta ferreira

    vc é mesmo blafemo hein!
    Se Deus fosse criatura , quem teria criado ele ?nao seria algum criador ?

  4. 4 Marta ferreira

    diluvio biblico? existira sim ! em pleno seculo XXI tivemos um tsumane eai o que me diria disso entao?pq vc nao acredita em diluvio?tsuname e diluvio é a mesma coisa meu amigo!

  5. 5 Marta ferreira

    aiaiai vi que vc nunca estudou sobre acustica e sobre geologia !Muros cairiam ao som de trombetas sim sim …so por acustica!